A Frase Mais Radical da Filosofia Moderna
“O homem está condenado a ser livre.” Esta afirmação, pronunciada por Jean-Paul Sartre em sua famosa conferência “O Existencialismo é um Humanismo” (1945), é possivelmente uma das declarações mais radicais e perturbadoras de toda a filosofia moderna. À primeira vista, parece paradoxal: como pode a liberdade – geralmente vista como o bem supremo, algo a ser conquistado e celebrado – ser uma condenação?
Para Sartre (1905-1980), filósofo, romancista e dramaturgo francês, esta não é mera provocação retórica. É a verdade fundamental da condição humana, e compreendê-la é essencial para viver autenticamente. Somos condenados à liberdade porque não escolhemos existir, não escolhemos as circunstâncias iniciais de nossa existência, mas uma vez lançados no mundo, somos absolutamente livres e absolutamente responsáveis por cada escolha que fazemos.
Esta ideia está no coração do existencialismo sartriano, uma filosofia que dominou o cenário intelectual europeu no pós-Segunda Guerra Mundial e que continua ecoando em debates contemporâneos sobre liberdade, responsabilidade, autenticidade e sentido da vida. Em uma época onde frequentemente buscamos desculpas para nossos fracassos – culpando genética, educação, traumas, sociedade – Sartre nos confronta com uma verdade incômoda: você é quem você escolhe ser, sem desculpas.
Jean-Paul Sartre: Vida e Contexto Histórico
Para entender plenamente o pensamento de Sartre, precisamos situá-lo em seu contexto histórico e biográfico. Nascido em Paris em 1905, Sartre viveu através de dois conflitos mundiais que abalaram profundamente as certezas da civilização europeia. A Primeira Guerra Mundial havia destruído a confiança otimista no progresso; a Segunda Guerra Mundial, com os horrores do Holocausto e as bombas atômicas, colocou em questão a própria humanidade do ser humano.
Durante a ocupação nazista da França (1940-1944), Sartre participou da Resistência e foi brevemente prisioneiro de guerra. Essas experiências de opressão, escolhas morais extremas e confronto com a morte moldaram profundamente sua filosofia. Como filosofar sobre essências abstratas quando se está diante de decisões concretas de vida ou morte? Como falar de determinismo quando cada dia exige escolhas com consequências reais e terríveis?
É neste contexto que Sartre desenvolve sua filosofia existencialista, primeiro em sua obra magistral “O Ser e o Nada” (1943), escrita durante a ocupação, e depois popularizada em “O Existencialismo é um Humanismo” (1945), uma conferência pública que se tornou texto fundamental. Sua companheira intelectual, Simone de Beauvoir, desenvolveria ideias paralelas, particularmente aplicadas à condição feminina em “O Segundo Sexo” (1949).
Sartre tornou-se não apenas um filósofo acadêmico, mas um intelectual público, engajado politicamente, cuja influência transcendeu a universidade. Seus romances (“A Náusea”, 1938) e peças teatrais (“Entre Quatro Paredes”, 1944) trouxeram suas ideias filosóficas para um público mais amplo. Em 1964, recusou o Prêmio Nobel de Literatura, afirmando que um escritor não deve se transformar em instituição.
Pontos-Chave do Artigo
- “O homem está condenado a ser livre” – frase central do existencialismo sartriano
- A existência precede a essência: não há natureza humana pré-determinada
- Liberdade radical significa responsabilidade total por nossas escolhas
- Má-fé é a tentativa de fugir da liberdade e da responsabilidade
- Angústia existencial surge da consciência de nossa liberdade absoluta
- Não podemos culpar Deus, natureza ou sociedade por quem somos
- Facticidade vs transcendência: estamos jogados no mundo, mas livres para transcendê-lo
- Sartre rejeita determinismo biológico, psicológico e social

A Existência Precede a Essência: O Princípio Fundamental
O ponto de partida do existencialismo sartriano é uma inversão radical da tradição filosófica ocidental. Por mais de dois mil anos, desde Platão e Aristóteles, os filósofos haviam assumido que a essência precede a existência. Primeiro existe uma ideia, uma forma, uma natureza ou essência do que algo é, e então essa essência se manifesta na existência concreta.
Pense em um artefato humano, como uma cadeira. O marceneiro primeiro concebe a ideia da cadeira – sua essência, sua função, seu design – e depois a constrói. A essência (a ideia da cadeira) precede a existência (a cadeira concreta). Esta mesma lógica foi aplicada aos seres humanos: Deus (ou a natureza) primeiro concebe a essência do ser humano – sua natureza humana – e depois o cria.
Sartre inverte completamente esta ordem quando se trata do ser humano. Como ele afirma em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 15): “A existência precede a essência”. Primeiro existimos, somos lançados no mundo sem manual de instruções, sem natureza predefinida, sem propósito estabelecido. E então, através de nossas escolhas e ações, criamos nossa própria essência, determinamos quem somos.
Esta inversão tem consequências monumentais. Significa que não há “natureza humana” fixa à qual possamos recorrer para justificar nosso comportamento. Não podemos dizer “ajo assim porque sou naturalmente egoísta” ou “não posso mudar porque é minha personalidade”. Para Sartre, estas são desculpas, formas de má-fé. Você age egoistamente porque escolhe agir egoistamente, e poderia, a qualquer momento, escolher diferente.
Como Sartre escreve em “O Ser e o Nada” (p. 516): “O homem não é nada além daquilo que ele faz de si mesmo”. Esta é a primeira consequência da afirmação de que a existência precede a essência. Não somos definidos por nossa biologia, nossa classe social, nosso passado ou nosso inconsciente. Somos definidos unicamente por nossas escolhas livres.
Condenado a Ser Livre: O Paradoxo Explicado
Mas por que “condenado”? Por que usar este termo pesado, associado a punição e prisão, para descrever a liberdade? Sartre explica em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 31): “Condenado, porque não se criou a si próprio, e, no entanto, livre, porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer”.
O primeiro aspecto da condenação é que não escolhemos existir. Fomos jogados na existência (o que Heidegger chamava de Geworfenheit, “ser-jogado”). Não pedimos para nascer, não escolhemos nossa família, nosso corpo inicial, nosso contexto histórico e cultural. Esta é nossa “facticidade” – o conjunto de fatos brutos sobre nossa situação que não escolhemos.
Mas – e este é o ponto crucial – mesmo não tendo escolhido existir, uma vez que existimos, somos forçados a escolher. Não escolher já é uma escolha. Como escreve Sartre em “O Ser e o Nada” (p. 479): “Estamos condenados a ser livres”. Mesmo a tentativa de escapar da liberdade (através de má-fé, conformismo, ou alegando determinismo) é uma escolha que fazemos livremente.
O segundo aspecto da condenação é o peso esmagador da responsabilidade. Se somos radicalmente livres, somos também radicalmente responsáveis. Não podemos culpar ninguém nem nada por quem somos ou pelo que fazemos. Não podemos dizer “a sociedade me fez assim” ou “meus pais são os culpados” ou “era meu destino”. Para Sartre, estas são evasões, recusas de assumir nossa liberdade e responsabilidade.
Como ele afirma em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 33): “O homem é responsável por aquilo que é”. E mais ainda: quando escolhemos por nós mesmos, escolhemos pela humanidade inteira. Cada escolha que fazemos afirma implicitamente: “Este é o modo como um ser humano deve agir nesta situação”. Carregamos, portanto, não apenas responsabilidade por nós mesmos, mas responsabilidade pelo modelo de humanidade que estamos criando.
Este peso é quase insuportável. Daí a condenação. A liberdade não é leveza e alegria, mas fardo e angústia. É mais fácil fingir que não somos livres, que somos determinados, que seguimos ordens, que cumprimos nosso papel social. Mas estas são formas de má-fé, de fuga da nossa verdadeira condição.
A Angústia Existencial: O Sentimento da Liberdade
Da consciência de nossa liberdade radical surge o que Sartre chama de angústia existencial. Esta não é angústia psicológica comum, nem ansiedade sobre situações específicas. É algo mais profundo: é o sentimento que experimentamos quando confrontamos nossa liberdade absoluta e a ausência de qualquer fundamento ou garantia para nossas escolhas.
Sartre ilustra isso com um exemplo famoso em “O Ser e o Nada” (p. 29-32): imagine-se à beira de um precipício. Você sente medo de cair – este é medo comum, medo de algo externo que poderia acontecer. Mas há outro sentimento mais profundo: angústia diante da possibilidade de você mesmo se jogar. Nada o impede. Nenhuma lei da natureza, nenhuma força externa. Apenas sua escolha livre de não fazê-lo. E esta ausência de garantia, esta percepção de que você é o único fundamento de sua própria segurança, é angustiante.
A angústia é o sentimento da liberdade. Surge quando percebemos que não há essência, destino ou natureza que nos guie; que não há valores objetivos inscritos no cosmos; que não há Deus para nos dizer o que fazer; que estamos absolutamente sós em nossas escolhas. Como Sartre escreve em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 27): “Não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento”.
Esta angústia explica por que muitas pessoas fogem de sua liberdade. É mais confortável seguir regras, conformar-se às expectativas sociais, acreditar que há um caminho correto predeterminado. A liberdade radical é vertiginosa. Como diz o personagem de Sartre em “Entre Quatro Paredes”: “O inferno são os outros” – não porque os outros sejam maus, mas porque sob o olhar dos outros tomamos consciência de nossa liberdade e da necessidade constante de justificar nossas escolhas.
A angústia também se manifesta na responsabilidade por nossas escolhas. Quando escolhemos, não podemos culpar ninguém pelo resultado. Se a escolha leva a consequências ruins, não podemos dizer “não era isso que eu queria” – porque fomos nós que escolhemos. Sartre é implacável neste ponto: somos responsáveis inclusive pelas consequências não-intencionais de nossas ações, porque ao agir, aceitamos as consequências possíveis.
Má-Fé: A Tentativa de Fuga da Liberdade
Um dos conceitos mais importantes e práticos da filosofia sartriana é a “má-fé” (mauvaise foi). Má-fé é a tentativa de escapar da angústia da liberdade fingindo para si mesmo que não se é livre, que se é determinado, que se age por necessidade e não por escolha.
Sartre oferece exemplos clássicos em “O Ser e o Nada” (p. 82-111). Um dos mais famosos é o garçom de café que desempenha seu papel de maneira exagerada, mecânica, como se fosse um autômato. Seus gestos são muito precisos, muito profissionais, muito “de garçom”. Ele age como se ser garçom fosse sua essência, sua natureza, como se não tivesse escolha senão agir exatamente daquela maneira. Mas isso é má-fé: ele escolhe identificar-se totalmente com seu papel social para escapar da liberdade e da responsabilidade de ser ele mesmo.
Outro exemplo: uma mulher em um primeiro encontro. Um homem faz avanços românticos, toma sua mão. Ela deixa sua mão inerte, como se fosse uma coisa, um objeto, não notando o que está acontecendo. Assim evita fazer uma escolha: não retira a mão (o que seria rejeitar), nem a aperta (o que seria aceitar). Tenta fugir do momento de escolha, da necessidade de decidir, fingindo ser objeto passivo e não sujeito livre. Isto é má-fé.
A má-fé assume muitas formas na vida cotidiana. Quando dizemos “não tive escolha”, geralmente mentimos para nós mesmos. Quando dizemos “é mais forte que eu”, negamos nossa liberdade. Quando nos escondemos atrás de papéis sociais (“sou apenas um funcionário cumprindo ordens”), fugimos de nossa responsabilidade. Quando alegamos que nossa personalidade, nosso passado ou nossa psicologia nos determinam, recusamos nossa transcendência.
Sartre dedica atenção especial ao que chama de “espírito de seriedade” – a atitude daqueles que tratam valores sociais como se fossem fatos objetivos da natureza, em vez de criações humanas. O burguês que defende a propriedade privada como “natural”, o tradicionalista que defende costumes como “eternos”, o moralista que trata suas regras como “absolutas” – todos estão em má-fé, negando que valores são escolhidos, não descobertos.
O oposto de má-fé é autenticidade: assumir plenamente sua liberdade, reconhecer que você é responsável por quem você é, aceitar a angústia que vem com isso. Mas Sartre é realista: a má-fé é tentação constante. A liberdade é pesada demais para ser carregada continuamente. Todos nós, em maior ou menor grau, caímos em má-fé em diferentes momentos de nossas vidas.
Situação e Projeto: Liberdade em Contexto
Um equívoco comum sobre Sartre é pensar que ele defende liberdade absoluta sem limites, que podemos fazer qualquer coisa. Mas isso é simplificação grosseira. Sartre distingue cuidadosamente entre “facticidade” (os fatos brutos sobre nossa situação) e “transcendência” (nossa capacidade de ultrapassar essa situação através de escolhas).
Como ele escreve em “O Ser e o Nada” (p. 537-638), estamos sempre em situação. Nascemos em determinada época, lugar, corpo, classe social. Não escolhemos estas circunstâncias – são nossa facticidade. Um operário pobre não pode simplesmente escolher ser bilionário; uma pessoa com deficiência física enfrenta limitações reais; alguém nascido em zona de guerra enfrenta perigos que não escolheu.
Mas – e este é o ponto crucial – mesmo em situação, permanecemos livres. Não livres para mudar os fatos brutos, mas livres para significá-los, para interpretá-los, para projetar possibilidades. O operário não pode mudar sua classe social imediatamente, mas é livre para ver sua situação como injustiça a ser combatida (e juntar-se a movimento operário) ou como destino natural (e conformar-se). A pessoa com deficiência não escolheu sua condição, mas é livre para significá-la de múltiplas maneiras.
Sartre usa o conceito de “projeto” para descrever como vivemos nossa liberdade em situação. Um projeto é o movimento pelo qual transcendemos nossa situação atual em direção a possibilidades futuras. Você está pobre agora, mas pode projetar-se em direção à educação, à mudança de carreira, à organização política. Você sofreu trauma, mas pode projetar-se em direção à cura, à compreensão, à transformação dessa dor em sabedoria ou arte.
O determinista diria: “Você é pobre porque nasceu pobre, e permanecerá pobre”. Sartre responde: “Você nasceu pobre (facticidade), mas o que você faz com essa pobreza, como você a significa, como você se projeta a partir dela – isso é sua liberdade”. Mesmo nos campos de concentração nazistas, como Viktor Frankl (não existencialista sartriano, mas com ideias paralelas) testemunhou em “Em Busca de Sentido”, prisioneiros mantinham liberdade última: a liberdade de atitude, de significação, de dignidade interior.
Esta é liberdade situada, não abstrata. Não podemos voar apenas porque escolhemos (nossa facticidade corporal não permite), mas somos livres para significar nossa incapacidade de voar – como limitação que devemos transcender tecnologicamente (inventando aviões), como fato a ser aceito serenamente, ou como metáfora de outras limitações que podemos superar.
O Outro e a Liberdade: Olhar e Objetificação
Uma dimensão crucial da filosofia sartriana é o papel do Outro – outras pessoas – em nossa experiência de liberdade. Sartre desenvolve isto extensamente em “O Ser e o Nada” (p. 290-364) e dramatiza em “Entre Quatro Paredes”.
O encontro com o Outro é ambíguo. Por um lado, o Outro ameaça minha liberdade ao me objetificar. Sob o olhar do Outro, torno-me objeto. Sartre ilustra com exemplo famoso: estou espiando pelo buraco de uma fechadura, totalmente absorto, pura consciência observadora. Subitamente, ouço passos – alguém me vê. Neste momento, passo de sujeito livre a objeto observado, julgado, categorizado. Sinto vergonha porque me vejo como o Outro me vê: como voyeur, como transgressor.
Este olhar objetificante é inescapável nas relações humanas. Vivemos constantemente sob olhar dos Outros, sendo categorizados, julgados, definidos de fora. E isto conflita com nossa consciência interna de liberdade e transcendência. Internamente, sou puro projeto, possibilidade aberta; externamente, para os Outros, sou tipo fixo: “o professor”, “o tímido”, “o fracassado”.
Daí a célebre frase de “Entre Quatro Paredes”: “L’enfer, c’est les autres” (O inferno são os outros). Na peça, três personagens mortos se encontram em sala fechada, condenados a conviver eternamente. Não há torturadores, instrumentos de tortura – apenas o olhar recíproco, cada um objetificando os outros, cada um tornando-se inferno para os demais.
Mas Sartre não é pessimista absoluto sobre relações humanas. Reconhece que o Outro também confirma minha liberdade. Preciso do Outro para ter identidade social, para ter meus projetos reconhecidos, para dar significado a muitas de minhas ações. E posso escolher relações autênticas onde reconheço a liberdade do Outro e o Outro reconhece a minha, em vez de tentarmos mutuamente nos objetificar e controlar.
O amor, para Sartre, é paradoxal. Queremos ser amados por escolha livre do Outro, mas também queremos que o Outro não possa deixar de nos amar – o que contradiz sua liberdade. Queremos ser objeto único e indispensável para o Outro, mas também queremos que o Outro nos reconheça como sujeito livre. Estas tensões tornam o amor (e todas relações interpessoais profundas) campo de conflito perpétuo entre liberdades.
Implicações Éticas: Responsabilidade Sem Desculpas
As implicações éticas da filosofia sartriana são radicais. Se somos absolutamente livres e absolutamente responsáveis, não há desculpas. Não podemos dizer “a sociedade me fez assim” ou “tive infância difícil” ou “estava apenas seguindo ordens”. Estas são todas formas de má-fé, tentativas de negar responsabilidade.
Em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 25-35), Sartre enfrenta objeção comum: se não há valores objetivos, se Deus está morto, então tudo é permitido? Não haveria responsabilidade moral? A resposta de Sartre é que ocorre exatamente o oposto: sem Deus ou natureza humana fixa, somos ainda mais responsáveis, não menos.
Quando ajo, não apenas escolho para mim mesmo, mas implicitamente afirmo: “Assim deve agir um ser humano nesta situação”. Cada ação minha é legislação para humanidade. Se minto, afirmo que mentira é resposta humana aceitável. Se ajo com coragem, afirmo coragem como valor. Esta responsabilidade universal é esmagadora.
Sartre ilustra com exemplo de jovem francês durante ocupação nazista que vem consultá-lo (p. 34-36). O jovem deve escolher entre juntar-se à Resistência na Inglaterra (dever patriótico) ou ficar para cuidar da mãe doente (dever filial). Sartre recusa dar resposta. Qualquer conselho seria má-fé. O jovem deve escolher, e ao escolher, definirá quem ele é. Não há critério objetivo para decidir; não há cálculo que forneça resposta correta. Há apenas escolha em angústia.
Esta ética da responsabilidade absoluta tem sido criticada como excessivamente severa, mesmo cruel. Culpar vítimas de circunstâncias opressivas por não transcenderem sua situação parece injusto. Sartre moderou algumas de suas posições em obras posteriores, reconhecendo peso maior das estruturas sociais. Mas manteve ponto central: mesmo oprimido, mesmo em circunstâncias terríveis, preservamos margem de liberdade e responsabilidade. Negá-la é, em última análise, desumanizante.
Críticas e Limitações da Filosofia Sartriana
A filosofia de Sartre, embora influente, enfrentou críticas substanciais. Filósofos analíticos criticaram sua fenomenologia como vaga e não-científica. Marxistas argumentaram que ele subestimava determinação material e social. Feministas como Simone de Beauvoir (ironicamente, sua companheira) apontaram que liberdade abstrata ignora realidades concretas de opressão, especialmente de gênero.
Uma crítica importante vem da psicologia e neurociência contemporâneas. Experimentos como os de Benjamin Libet sugerem que decisões conscientes podem ser precedidas por atividade neural inconsciente, questionando noção de liberdade absoluta. Pesquisas sobre vieses cognitivos mostram como somos influenciados por fatores que não controlamos conscientemente.
Além disso, o próprio conceito de “má-fé” é problemático. Se toda tentativa de negar liberdade é má-fé, mas má-fé é escolha livre, então paradoxalmente somos livres até para negar nossa liberdade? Isto parece circular. E se angústia da liberdade é tão pesada, não seria psicologicamente compreensível, talvez até saudável, certo grau de má-fé?
Críticos também notam que Sartre, homem branco europeu privilegiado, podia mais facilmente proclamar liberdade radical. Para pessoas em extrema pobreza, opressão racial sistemática, ou violência estrutural, falar de “condenação à liberdade” pode soar como luxo intelectual desconectado da realidade.
Finalmente, o próprio Sartre reconheceu limitações. Em “Crítica da Razão Dialética” (1960), tentou sintetizar existencialismo com marxismo, reconhecendo que condições materiais restringem liberdade mais do que “O Ser e o Nada” sugeria. Nunca completou esta síntese satisfatoriamente.
Relevância Contemporânea: Sartre no Século XXI
Apesar das críticas, o pensamento sartriano permanece surpreendentemente relevante. Em era de determinismo neurocientífico (“seu cérebro decidiu antes de você saber”), algoritmos preditivos (“sabemos o que você vai fazer”), e vitimização cultural (“não sou responsável, a sociedade me fez assim”), a insistência de Sartre na liberdade e responsabilidade humanas é antídoto necessário.
Vivemos em época de crise de responsabilidade. Políticos culpam predecessores. Corporações culpam “forças de mercado”. Indivíduos culpam genes, pais, trauma, transtornos. Há verdade em reconhecer influências e limitações, mas Sartre nos lembra: em algum ponto, você tem que assumir responsabilidade por quem você é e o que você faz.
A análise sartriana de má-fé é especialmente pertinente para era das redes sociais. A curadoria obsessiva de identidade online, a performance de papéis sociais, a busca de validação externa, o conformismo mascarado de autenticidade – tudo isso exemplifica má-fé contemporânea. Fingimos ser o que postamos, esquecendo que somos liberdade e transcendência, não perfil fixo.
O conceito de angústia existencial também ressoa. Ansiedade contemporânea frequentemente reflete não apenas pressões externas, mas confronto com liberdade: infinitas possibilidades de carreira, identidade, estilo de vida, relacionamentos. Esta “tirania da escolha” é face moderna da condenação à liberdade. Nossos ancestrais tinham caminhos mais determinados; nós enfrentamos vertigem de criar nossas próprias vidas sem mapa.
Finalmente, em era de polarização política e fanatismo, lembrança de Sartre de que valores não são fatos objetivos mas escolhas humanas é crucial. Não podemos fundamentar nossas convicções em “natureza”, “Deus” ou “história” – apenas em nossa escolha livre de afirmá-las e vivê-las. Isto deveria induzir humildade e abertura ao diálogo, reconhecendo que outros fazem escolhas diferentes igualmente livres.
Conclusão: Assumindo Nossa Condenação
Jean-Paul Sartre nos confronta com verdade desconfortável: somos radicalmente livres e radicalmente responsáveis. Não há essência humana que nos determine, não há Deus que nos justifique, não há destino que nos absolva. Estamos condenados à liberdade – condenados porque não escolhemos esta condição, mas inevitavelmente livres uma vez que existimos.
Esta filosofia é exigente. Mais fácil seria acreditar que somos produtos de forças que não controlamos – genes, educação, sociedade, inconsciente. Mais confortável seria seguir papéis predefinidos, normas sociais estabelecidas, autoridades externas. Mas para Sartre, isto é má-fé, fuga da autenticidade, recusa de assumir nossa verdadeira condição.
A mensagem de Sartre não é niilista ou desesperançada. Ao contrário, é profundamente humanista. Afirma dignidade e potência humanas. Você não é vítima passiva de circunstâncias, não é marionete de forças externas. Você é liberdade, possibilidade, transcendência. Você cria seu próprio significado, define seus próprios valores, inventa sua própria essência através de suas escolhas.
Sim, isto vem com angústia. Sim, o peso da responsabilidade é esmagador. Sim, tentaremos fugir para má-fé repetidamente. Mas momentos de autenticidade – quando assumimos plenamente nossa liberdade, quando escolhemos sem desculpas, quando nos tornamos o que escolhemos ser – são momentos de realização profundamente humana.
Em última análise, Sartre nos convida a crescer, a amadurecer, a deixar infância de dependência e determinismo. Convida-nos a viver como adultos existenciais: assumindo responsabilidade por nossa existência, fazendo escolhas conscientes, criando-nos a nós mesmos com coragem e autenticidade. Esta é a condenação à liberdade – pesada, assustadora, inescapável, mas também fonte de dignidade, significado e humanidade genuína.
Como ele conclui em “O Existencialismo é um Humanismo” (p. 87): “O homem não é nada mais do que seu projeto, não existe senão na medida em que se realiza, não é portanto nada mais do que o conjunto de seus atos, nada mais do que sua vida.” Somos o que fazemos. Somos o que escolhemos. E não há desculpas.
Referências Bibliográficas
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 2015.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Tradução: João Batista Kreuch. Petrópolis: Vozes, 2014.
SARTRE, Jean-Paul. Entre Quatro Paredes (Huis Clos). Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
Páginas específicas citadas:
O Ser e o Nada:
- Páginas 29-32: Angústia existencial e exemplo do precipício
- Páginas 82-111: Análise da má-fé com exemplos do garçom e da mulher
- Páginas 290-364: O Outro, o olhar e a objetificação
- Páginas 479: “Estamos condenados a ser livres”
- Páginas 516: “O homem não é nada além daquilo que ele faz de si mesmo”
- Páginas 537-638: Situação, facticidade e transcendência
O Existencialismo é um Humanismo:
- Página 15: “A existência precede a essência”
- Páginas 25-35: Implicações éticas e responsabilidade universal
- Página 27: Ausência de valores objetivos e legitimação do comportamento
- Página 31: “Condenado, porque não se criou a si próprio…”
- Página 33: “O homem é responsável por aquilo que é”
- Páginas 34-36: Exemplo do jovem francês dividido entre Resistência e mãe
- Página 87: “O homem não é nada mais do que seu projeto…”











