Se você chegou até aqui, é provável que esteja assustado. Talvez você tenha digitado no Google frases como “sinto que não sou real”, “o mundo parece um sonho” ou “acho que estou enlouquecendo”.
Primeiro, respire. Você não está ficando louco. Você não está com esquizofrenia. Você não quebrou o seu cérebro de forma permanente.
O que você está sentindo tem nome, tem causa e, o mais importante, tem cura. Este artigo é um mergulho profundo, fundamentado na ciência e na experiência clínica, sobre a Despersonalização (DP) e a Desrealização (DR). Vamos desmontar o medo, peça por peça.
1. O Que Está Acontecendo Comigo?
Para o leigo, explicar a sensação de DP/DR é quase impossível. É uma experiência subjetiva tão profunda que a linguagem parece falhar. No entanto, entender as definições é o primeiro passo para sair do ciclo do medo.
Despersonalização (DP): O “Eu” Desconectado
A despersonalização é a sensação de distanciamento de si mesmo. É como se você fosse um observador externo dos seus pensamentos, sentimentos ou corpo.
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A sensação de Robô: Muitos relatam sentir que seus movimentos são automáticos. Você levanta o braço, mas não sente que a “ordem” partiu de você.
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Anestesia Emocional: Você sabe que ama sua família, mas não sente esse amor. É como se houvesse um vidro entre sua essência e suas emoções.
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Estranhamento no Espelho: Olhar no espelho e não reconhecer a imagem refletida como sendo “você”. Você sabe que é você racionalmente, mas a conexão visceral sumiu.
“A característica essencial da despersonalização é a experiência de irrealidade, distanciamento ou de ser um observador externo dos próprios pensamentos, sentimentos, sensações, corpo ou ações.” — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), Página 335.
Desrealização (DR): O “Mundo” de Plástico

Enquanto a DP é interna, a Desrealização é externa. É a alteração na percepção do ambiente.
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Visão 2D: O mundo perde a profundidade. Tudo parece plano, como uma pintura ou uma tela de cinema.
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O Efeito “Dreamy”: A sensação constante de estar sonhando acordado. As vozes das pessoas parecem distantes ou abafadas.
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Distorções Visuais: Objetos podem parecer maiores ou menores do que são (macropsia/micropsia), ou o ambiente pode parecer artificial, feito de plástico ou papelão.
2. Pontos Importantes:
Se você está com pressa ou a ansiedade dificulta a leitura longa, aqui estão os pilares fundamentais que você precisa saber agora:
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É um Mecanismo de Defesa: A DP/DR não é uma doença em si, é um escudo do cérebro contra trauma ou estresse excessivo.
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A Ansiedade é o Combustível: Quanto mais você teme a sensação, mais ela persiste. É um ciclo de feedback negativo.
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Checagem da Realidade Intacta: Ao contrário da psicose, quem tem DP/DR sabe que algo está errado. Você não perdeu o contato com a realidade; apenas a sensação dela mudou.
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É Temporário: Ninguém nasce com DP/DR e ninguém precisa morrer com isso. É um estado transitório, mesmo que dure anos (crônico).
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Sintomas Físicos são Comuns: Tontura, visão turva (“visual snow”) e zumbido no ouvido frequentemente acompanham o quadro.
3. As Causas: Por Que o Cérebro “Desliga”?
Para entender a causa, precisamos recorrer à biologia evolutiva e à neurociência.

O Mecanismo de Luta, Fuga e… Congelamento
Você conhece a resposta de “luta ou fuga”. Quando um leão aparecia na savana, seu corpo despejava adrenalina para você correr. Mas existe uma terceira resposta: o Congelamento (Freeze).
Quando o cérebro percebe uma ameaça tão grande que nem lutar nem fugir são opções viáveis, ou quando o sistema nervoso está sobrecarregado por estresse acumulado (burnout), ele entra em um modo de “economia de energia” ou “modo de segurança”.
A DP/DR é esse modo de segurança. O cérebro “desliga” a vivacidade da realidade e das emoções para proteger a psique de uma dor ou choque que ele julga ser insuportável.
Gatilhos Comuns
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Ataques de Pânico: A causa mais comum. Um ataque de pânico é tão traumático que o cérebro dissocia para lidar com o terror.
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Uso de Substâncias: Maconha (cannabis), alucinógenos ou até excesso de cafeína podem desencadear um episódio (“bad trip”) que deixa o sistema nervoso sensibilizado.
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Trauma (TEPT): Abusos na infância, acidentes de carro ou perdas repentinas.
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Estresse Prolongado: Anos de ansiedade, trabalho excessivo ou preocupação constante.
“A despersonalização é frequentemente precipitada por estresse severo, depressão, ansiedade e uso de drogas ilícitas… Não é uma falha do cérebro, mas uma resposta adaptativa levada ao extremo.” — Simeon, D., & Abugel, J. em “Feeling Unreal: Depersonalization Disorder and the Loss of the Self”, Página 45.
4. Sintomas Detalhados: O Inventário do Estranho
Vamos aprofundar nos sintomas para que você veja que não está sozinho.
Sintomas Existenciais
Este é o lado filosófico e aterrorizante da DP/DR. O paciente começa a ter pensamentos obsessivos sobre a existência.
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“Como eu sei que estou vivo?”
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“O que é a consciência?”
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“Por que eu sou eu e não outra pessoa?”
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Medo do Infinito: Uma vertigem ao pensar no espaço ou na eternidade.
Esses pensamentos não são perigosos, mas são exaustivos. Eles ocorrem porque o filtro natural do cérebro, que normalmente ignora essas questões para focar na sobrevivência diária, está desativado pela ansiedade.
Sintomas Visuais e Perceptivos
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Visão de Túnel: Foco estreito, perda da visão periférica.
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Neve Visual (Visual Snow): Ver estática, como uma TV antiga fora do ar, sobreposta ao campo de visão.
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Sensibilidade à Luz: Luzes fluorescentes de supermercados ou escritórios tornam a irrealidade muito pior.
5. O Ciclo do Medo: Por que não passa?
Se a DP/DR é uma proteção, por que ela se torna crônica e dura meses ou anos?
A resposta está na Interpretação.
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Você sente a irrealidade (Gatilho).
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Você pensa: “Meu Deus, estou enlouquecendo, isso nunca vai passar” (Interpretação Catastrófica).
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O cérebro recebe essa mensagem de medo e libera mais adrenalina e cortisol.
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O sistema nervoso fica mais alerta e, para proteger, dissocia mais.
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A sensação de irrealidade aumenta.
É o que a Dra. Claire Weekes chamava de “Medo do Medo”.
“A recuperação reside na capacidade de aceitar os sentimentos estranhos sem adicionar um segundo medo a eles. O segundo medo é o que mantém o nervo sensibilizado.” — Weekes, C. em “Hope and Help for Your Nerves”, Página 58.
6. Mitos e Verdades: O Que Você Precisa Esquecer
Mito: É o início da Esquizofrenia.
Verdade: Absolutamente não. Na esquizofrenia e psicoses, há uma quebra com a realidade (alucinações, delírios que o paciente acredita serem reais). Na DP/DR, o teste de realidade permanece intacto. Você sente que está ficando louco, mas o fato de você estar preocupado com isso prova que você não está. Loucos não questionam sua sanidade; eles têm certeza de seus delírios.
Mito: É permanente.
Verdade: A DP/DR é um estado funcional, não estrutural. Seu cérebro não está danificado. Ele está apenas operando em um software diferente temporariamente. Assim que o sistema nervoso se acalma (“desliga o alarme de incêndio”), a realidade volta.
Mito: Remédios curam DP/DR.
Verdade: Não existe um remédio aprovado especificamente para curar Despersonalização. Antidepressivos (ISRS) e ansiolíticos podem ajudar a reduzir a ansiedade basal e a depressão secundária, o que indiretamente ajuda a DP/DR a diminuir, mas a cura vem da mudança comportamental e cognitiva.
7. Estratégias de Tratamento e Recuperação
Como terapeuta especializado que já esteve no seu lugar, sei que “dicas genéricas” não funcionam. Aqui está o que a ciência e a prática clínica mostram ser eficaz.
A Abordagem da Aceitação Ativa
Tentar “lutar” contra a sensação ou tentar “sentir-se normal” à força só gera mais tensão. A abordagem mais eficaz, baseada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e nos ensinamentos de Paul David, é paradoxal:
Você deve permitir que a sensação esteja lá, sem se engajar com ela.
Imagine que a DP/DR é um convidado chato na sua festa. Se você tentar expulsá-lo aos gritos, ele fará uma cena e estragará a festa. Se você simplesmente deixá-lo no canto e continuar conversando com seus amigos, eventualmente ele fica entediado e vai embora.
“Pare de checar como você se sente. A verificação constante é um ato de ansiedade. Viver a vida, apesar de como você se sente, é o caminho para desativar a amígdala.” — David, P. em “At Last a Life”, Página 82.
Grounding (Aterramento)
Técnicas para trazer o foco para o corpo físico, mas cuidado: não use isso como uma “fuga” do sintoma, mas como uma âncora.
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Tocar texturas: Sinta a temperatura da água, a textura de um tecido.
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Exercício Físico Intenso: Levantar pesos ou correr pode ajudar a queimar o excesso de adrenalina e trazer uma sensação de “corpo presente”.
Higiene do Sono e Dieta
Um cérebro cansado dissocia mais.
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Evite cafeína e álcool (são gatilhos potentes).
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Regule o sono. A privação de sono imita sintomas de DP/DR até em pessoas saudáveis.
8. O Diagnóstico Profissional (DSM-5)
Para fins de informação (não se autodiagnostique), o DSM-5 classifica o Transtorno de Despersonalização/Desrealização sob o código 300.6 (F48.1).
Os critérios principais incluem:
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Presença de experiências persistentes ou recorrentes de despersonalização, desrealização ou ambas.
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Durante as experiências, o teste de realidade permanece intacto.
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Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social/profissional.
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A perturbação não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou outra condição médica.
9. De Ex-Sofredor a Terapeuta Especialista: Eu Venci Esse Pesadelo e Você Também Pode.

Sei que você deve estar cansado de ouvir “é só ansiedade” ou de tentar explicar para amigos e familiares a sensação aterrorizante de estar desconectado do mundo, como se vivesse atrás de uma parede de vidro. Eu sei disso porque eu vivi isso na pele.
Por anos, enfrentei o medo de olhar no espelho e não me reconhecer. Enfrentei o terror de achar que estava perdendo a sanidade e que ficaria preso nessa sensação de “sonho” para sempre. Eu conheço a dor, o isolamento e o desespero que a Despersonalização e a Desrealização trazem.
Mas a mensagem mais importante que tenho para você hoje é: existe saída.
Eu não apenas me curei completamente, recuperando minha vida e minha alegria, como transformei essa dor em propósito. Dediquei minha vida a estudar profundamente o mecanismo da DP/DR, me tornei terapeuta e me especializei nessa área para ser o guia que eu gostaria de ter tido lá atrás.
Separei abaixo 3 vídeos do meu canal onde explico, com a clareza de quem estudou e a empatia de quem sentiu, o que está acontecendo com você e os primeiros passos para a liberdade. Assista com atenção:
10. Finalizando: A Luz no Fim do Túnel
A Despersonalização e a Desrealização são, ironicamente, mecanismos de proteção que funcionaram bem demais. Seu cérebro está tentando te salvar de um tigre que não existe mais.
Eu me lembro de olhar para as minhas mãos e achar que elas pertenciam a um alienígena. Lembro de andar na rua e sentir que o chão era macio, como nuvens. Eu tinha certeza de que minha vida tinha acabado.
Mas aqui estou eu. Escrevendo isso para você, 100% conectado, 100% real. A cura não é apenas possível; ela é inevitável se você seguir o caminho correto de desarmar a resposta de ansiedade. O nevoeiro vai levantar. As cores vão voltar. Você vai se sentir você de novo.
O Convite para a Mudança
Você sente que está vivendo atrás de uma parede de vidro, gritando mas ninguém te ouve? Acorda todos os dias torcendo para se sentir “normal”, mas a sensação de irrealidade continua lá, te assombrando?
Eu sei exatamente como é essa dor. Eu sei o que é ir a médicos que dizem “é só ansiedade” e te mandam para casa, enquanto você sente que sua mente está se desfazendo. A literatura médica é fria, mas a experiência real é aterrorizante. No entanto, existe um método, uma lógica por trás dessa loucura aparente. Você não precisa viver com medo do seu próprio cérebro.
Imagine acordar amanhã e sentir o cheiro do café com clareza. Imagine olhar no espelho e sorrir, reconhecendo a pessoa que está lá. Imagine a neblina mental se dissipando e dando lugar a uma paz e segurança que você não sente há muito tempo. Eu vivi isso. Eu superei isso. E hoje, como terapeuta especializado, já ajudei centenas de pessoas a fazerem o mesmo caminho de volta para a realidade.
Não perca mais um dia preso nesse pesadelo. Você não precisa enfrentar isso sozinho. Se você entendeu que precisa de orientação especializada de alguém que viveu na pele o que você está passando:











