Pontos mais importantes deste artigo:
- A “universidade” nasceu como uma corporação, parecida com uma guilda, com regras próprias e defesa de direitos. (PagePlace)
- O termo universitas não significava, no início, “campus” ou “prédio”, mas um corpo coletivo de pessoas com um ofício comum. (Wikisource)
- Bolonha e Paris viraram modelos diferentes, Bolonha com forte organização estudantil, Paris com maior peso dos mestres. (Ragged University)
- A escolástica se consolidou como cultura intelectual das escolas, com práticas como lectio, quaestio e disputatio.
- Tomás de Aquino foi um grande professor universitário, atuou em Paris, debateu controvérsias do seu tempo e ajudou a dar forma ao “jeito universitário” de pensar.
Para começar a conversa: Por que olhar para a universidade medieval hoje
Quando a gente fala “universidade”, costuma imaginar salas, corredores, biblioteca, prova, diploma. Só que, no começo, universidade não era isso. Era uma solução social para um problema enorme: como organizar o estudo avançado, em cidades cheias, com gente vindo de longe, com conflitos de autoridade, com disputas religiosas, políticas e econômicas.
A universidade medieval nasce quando o conhecimento deixa de ser apenas um assunto de mosteiro ou de escola ligada a uma catedral, e vira também um assunto de cidade, de profissão, de carreira e de reconhecimento público. Walter Rüegg resume essa virada com uma definição bem concreta: universidade como comunidade de mestres e estudantes, com direitos como autonomia administrativa, definição de currículos e concessão de graus reconhecidos publicamente. (PagePlace)
E aí entra a escolástica. Não como “algo velho”, mas como um modo de estudar que treinava o pensamento para lidar com tensões reais: discordâncias entre autoridades, conflitos de interpretação, choque entre tradição e novas ideias, principalmente com a chegada de Aristóteles traduzido e comentado. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
O que mudou na Europa para nascer a universidade
A universidade não surgiu por decreto mágico, ela cresceu porque o mundo medieval mudou.
Cidades, circulação e a nova vida urbana
Do século XII em diante, várias regiões europeias viveram crescimento urbano e intensificação de rotas, comércio e vida corporativa. É nesse ambiente que “corporações” e “associações” se tornam linguagem comum. Se artesãos podiam se organizar para proteger o ofício, por que não estudantes e mestres, que também eram “estrangeiros” em muitas cidades?
A própria definição histórica de “universidade” como guilda, e como associação voltada à proteção e ao exercício do ensino, aparece com força em descrições clássicas sobre o período. A Encyclopædia Britannica de 1911 registra que universitas era termo para qualquer comunidade ou corporação, e que a universidade, no estágio inicial, aparece como uma “scholastic gild”, uma guilda escolar, uma combinação espontânea de mestres e estudantes, em analogia a guildas de ofício e a guildas de estrangeiros. (Wikisource)
O conhecimento vira “função pública”
Com o tempo, certos centros de estudo começam a ter reputação que ultrapassava o bairro ou a cidade. Aí entra a ideia de studium generale, um lugar para onde vinham estudantes de várias regiões, e cujo ensino passava a ter peso “geral”. A Britannica de 1911 destaca que, além da reputação, um ponto decisivo foi o “direito de ensinar em qualquer lugar”, ligado ao reconhecimento da licença para ensinar, o famoso facultas ubique docendi. (Wikisource)
Em termos simples: o diploma nasceu como licença de trabalho intelectual. Ser “mestre” era poder ensinar, e isso precisava ser reconhecido.
De “studium” a “universitas”: o que a palavra significava
A palavra “universidade” engana a nossa imaginação moderna. Hoje ela parece indicar um lugar físico. No medievo, “universitas” era, primeiro, um corpo social.
Rüegg lembra que o nome universitas era aplicado, na Idade Média, a corpos corporativos variados, e por isso foi aplicado também à organização corporativa de mestres e estudantes. (PagePlace)
A Britannica de 1911 é ainda mais direta, diz que universitas magistrorum et scholarium era a forma frequente para indicar uma comunidade de mestres e estudantes, e que depois o termo passa a ser usado sozinho, quando a existência corporativa já era reconhecida por autoridade civil ou eclesiástica. (Wikisource)
Uma corporação, com regras e conflitos
Uma corporação não nasce só para “celebrar conhecimento”, ela nasce para sobreviver. Quem já teve que alugar casa em cidade universitária entende: preço sobe, conflito aparece, regras viram disputa.
O artigo “Origem e memória das universidades medievais”, da Varia Historia, traz uma formulação muito clara, ao citar que a universidade, no começo, era uma corporação de estudantes e professores agrupados para defender seus interesses “em terra estrangeira”. (SciELO Brasil)
Isso muda a chave de leitura: universidade é uma instituição intelectual, sim, mas também é uma instituição social, com tensões, negociações e proteção de direitos.
Bolonha, Paris e o modelo universitário que se espalhou
Quando se fala em “primeiras universidades”, dois nomes aparecem o tempo todo: Bolonha e Paris. Não porque foram as únicas, mas porque viraram modelos.
Bolonha: estudantes organizados, direito no centro
Hastings Rashdall descreve Bolonha como “universidade de estudantes”, no sentido de que guildas estudantis conseguiram, com o tempo, colocar nas próprias mãos boa parte do controle do studium, em matérias que em Paris eram resolvidas pelos mestres. (Ragged University)
Ao mesmo tempo, Rashdall faz uma observação crucial: os doutores, os mestres do direito, mantiveram até o fim um poder exclusivo, o de examinar e licenciar quem entrava na “profissão”, e isso é típico de uma guilda profissional. Eles examinavam, davam licença, e depois havia um rito de recepção no colégio dos doutores, com insígnias do ofício. (Ragged University)
Ou seja, a universidade também era uma máquina de credencial, um sistema de validação pública de competência.
Paris: mestres, teologia e disputa intelectual de alto nível
Paris se torna um centro de teologia e artes, com enorme influência, e com conflitos famosos, inclusive sobre quem tem o direito de ensinar.
Alexandre Correia lembra que as universidades eram corporações do tipo universitas magistrorum et scolarium, e enfatiza a necessidade de autoridade papal, imperial ou real para fundação de um studium generale, citando ainda a bula Parens scientiarum (1231) como uma espécie de “Magna Carta” da Universidade de Paris, com previsões como a possibilidade de suspender cursos diante de ofensa não reparada.
Rüegg também menciona que estatutos parisienses foram confirmados por autoridade papal no início do século XIII, e que em Bolonha exames coletivos doutorais foram um “semente” para cristalizar a comunidade de doutores. (PagePlace)
“Nações” estudantis: proteção e política na prática
Quem vinha de longe precisava de rede de proteção. Por isso surgem as “nações”, grupos por origem regional. A Britannica descreve “nation” como forma organizacional básica, com estudantes agrupados para proteção e bem-estar, e até com funções de examinar e educar em alguns lugares, governadas por um “proctor”. (Encyclopedia Britannica)
Esse detalhe é fascinante porque mostra que, dentro da universidade, jovens aprendiam prática institucional, eleição, assembleia e regras. Sem romantizar, mas dá para dizer que a universidade foi também uma escola de vida cívica.
Escolástica: o método que transformou a dúvida em ferramenta
A palavra “escolástica” às vezes vira xingamento, como se fosse sinônimo de repetição vazia. Mas, historicamente, escolástica é uma cultura intelectual, um conjunto de práticas de estudo, argumentação e debate, ligado às escolas e universidades.
O verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy explica que “escolasticismo” se refere à cultura intelectual característica das escolas medievais, e que, no século XII, o ensino virou uma indústria florescente em lugares como Paris e Bolonha, e no começo do século XIII mestres formaram corporações chamadas universidades. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
As três engrenagens: lectio, quaestio, disputatio
Um jeito simples de entender a escolástica é imaginar um “ciclo de estudo”:
- Lectio, leitura guiada do texto, com explicação.
- Quaestio, levantar a dúvida real, onde o texto parece contradizer algo, ou onde a interpretação não fecha.
- Disputatio, debate estruturado, com argumentos a favor e contra, buscando uma solução racional e coerente.
No artigo sobre a prática de lectio na tradição medieval, a universidade aparece como instituição central, organizada como corporação, e a análise de lectio/lectura é apresentada como caminho para avançar no método escolástico.
O mesmo texto destaca que a escolástica institucionaliza a leitura de textos como base pedagógica, e apresenta a ideia de quaestio como “propositio dubitalis”, uma proposição que coloca uma dúvida, abrindo espaço para controvérsia e solução dialética, citando autores como Boécio, Anselmo e Abelardo como marcos importantes para a formação do método.
Essa é a profundidade escondida sob a palavra “escolástica”: não é só repetir autoridade, é aprender a tratar contradição aparente como problema a ser resolvido com precisão.
Autoridade e razão: uma tensão produtiva
A escolástica não parte do zero. Ela parte de autoridades, Bíblia, Padres, Aristóteles, direito civil e canônico. A Stanford Encyclopedia observa que escritores escolásticos usavam gêneros característicos como comentário e questão disputada, e que as universidades foram impulsionadas pela tradução das obras de Aristóteles e comentários relacionados. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Isso explica por que o nascimento das universidades e o florescimento escolástico andam juntos: o volume de textos, ideias e disputas cresceu, e era preciso um método, e uma instituição, para organizar esse campo.
Tomás de Aquino: professor universitário e arquiteto de sínteses

Tomás de Aquino não é só “um santo” ou “um teólogo”, ele é, também, um professor universitário no sentido forte do termo, alguém que viveu a cultura do ensino superior medieval.
A Encyclopedia of Philosophy registra sua trajetória acadêmica, estudos em Paris, doutorado em teologia, docência em Paris, e depois seu retorno para um segundo professorado em teologia na Universidade de Paris, onde se envolveu em controvérsias com teólogos conservadores, com defensores radicais do aristotelismo latino, e com críticos das ordens mendicantes e seu direito de ensinar na universidade.
Isso coloca Tomás no centro do que a universidade era naquele momento: um lugar de debate intenso, disputas de autoridade e reorganização intelectual, especialmente diante da chegada e sistematização de Aristóteles.
O que Tomás faz de “escolástico”, na prática
A escolástica não é só tema, é forma. Ela aparece no modo de escrever, de ensinar e de debater.
Tomás produziu, segundo a Encyclopedia of Philosophy, registros de disputações, as “Disputed Questions” e “Quodlibetal Questions”, além de comentários bíblicos e comentários sobre doze tratados de Aristóteles.
O que isso significa, para um leitor leigo?
- Ele não escreve apenas “um livro”, ele escreve dentro de gêneros universitários.
- Ele comenta textos, porque a lectio era central.
- Ele organiza questões, porque a quaestio era motor.
- Ele debate publicamente, porque a disputatio era método de pesquisa e ensino.
E aqui entra uma ideia que ajuda muito a não caricaturar o período: Tomás é famoso por buscar um “caminho do meio” em debates difíceis, a Encyclopedia of Philosophy chama isso de tendência temperamental para a moderação, e dá exemplo na questão dos universais, onde sua posição vira “realismo moderado”.
Essa moderação não é “em cima do muro”, é uma técnica: tentar fazer justiça às melhores razões de cada lado, antes de decidir.
Tomás, Aristóteles e a universidade como laboratório
A Stanford Encyclopedia lembra que as traduções de Aristóteles deram impulso às universidades, e que filosofia era estudada nas faculdades de artes, e também desenvolvida nas faculdades de teologia. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
Tomás é um símbolo desse cruzamento: ele usa Aristóteles como ferramenta filosófica, e discute fé e razão como campos que dialogam sem virar a mesma coisa. Isso é escolástica madura: tensão, distinção, argumentação.
A escolástica ajudou a inventar o que hoje chamamos “vida acadêmica”

É tentador pensar que “a universidade moderna” começa apenas no Iluminismo ou no século XIX. Mas várias peças centrais já estão no medievo.
Rüegg diz que a universidade preservou padrões fundamentais e função social ao longo da história, e que seus graus, bacharelado, licenciatura, mestrado e doutorado, foram adotados em sociedades diversas, e que as quatro faculdades medievais, artes, direito, medicina e teologia, sobreviveram e foram suplementadas por novas disciplinas. (PagePlace)
Mesmo que os nomes mudem e o conteúdo se transforme, a forma institucional de organizar conhecimento, currículos, avaliação e credenciais está aí.
O que fica de herança, em termos bem concretos
- Currículo como pacto coletivo, não como improviso individual. (PagePlace)
- Avaliação como rito público de entrada no ofício intelectual. (Ragged University)
- Debate estruturado como método de busca da verdade, não apenas como briga de opinião.
- Comunidade translocal, gente de fora, línguas e regiões diferentes, e a universidade como espaço de encontro. (Encyclopedia Britannica)
Por que isso importa para quem estuda hoje
Se você é estudante, professor, ou só alguém curioso, o nascimento das universidades medievais deixa uma mensagem bem atual: estudar é uma prática social, não apenas individual.
A universidade nasce quando a vida urbana cria uma necessidade de organização do saber, e a escolástica nasce quando o mundo textual e intelectual fica complexo demais para “achismos”. É por isso que a escolástica valorizou o treino, a leitura atenta, a formulação correta do problema, e o debate com regras.
E Tomás de Aquino, goste-se dele ou não, representa a coragem de entrar no conflito intelectual sem reduzir o outro a caricatura, sem fugir do problema, e sem abandonar o rigor.
Conclusão: o nascimento da universidade foi uma revolução silenciosa
A universidade medieval não foi perfeita, nem neutra, nem “pura”. Mas foi revolucionária porque criou uma forma relativamente estável de sustentar três coisas ao mesmo tempo: comunidade, método e reconhecimento público.
- Comunidade, porque mestres e estudantes se organizaram como corporação. (PagePlace)
- Método, porque a escolástica transformou a dúvida em procedimento, com lectio, quaestio e disputatio.
- Reconhecimento, porque graus e licenças passaram a funcionar como validação pública e transmissível do ensino. (Wikisource)
E quando Tomás de Aquino ensina, escreve, debate e comenta, ele mostra a universidade em ação: uma cultura que tenta fazer da razão um espaço de encontro com a verdade, mesmo quando o mundo está em disputa.
de Aquino, studium generale, lectio quaestio disputatio
Referências e citações usadas para este artigo:
- Rüegg, Walter (Foreword). A History of the University in Europe, Volume I: Universities in the Middle Ages. Cambridge University Press. Trechos sobre universidade como instituição europeia, comunidade de mestres e estudantes, autonomia, currículos e graus, p. 20 a 21 do PDF. (PagePlace)
- Rashdall, Hastings. The Universities of Europe in the Middle Ages, Vol. I (PDF). Discussão sobre Bolonha, guildas estudantis, papel dos doutores e o exame como função corporativa, p. 6 do PDF. (Ragged University)
- “Universities”, 1911 Encyclopædia Britannica (Wikisource). Definição de universitas, universitas magistrorum et scholarium, universidade como guilda escolar, e o tema do facultas ubique docendi, seção inicial do verbete. (Wikisource)
- Oliveira, Terezinha. “Origem e memória das universidades medievais”. Varia Historia (SciELO), 2007. Trecho sobre universidade como corporação de estudantes e professores, e discussão contextual sobre universidade medieval, p. 11 a 13 do PDF. (SciELO Brasil)
- Martines, Paulo. “The Practice of lectio in the Medieval tradition, Lecturis salutem” (Acta Sci. Educ., 2019). Discussão sobre lectio, método escolástico, quaestio e auctoritas, p. 1 a 3 do PDF.
- Kilcullen, John. “Medieval Political Philosophy” (Stanford Encyclopedia of Philosophy, arquivo Fall 2016). Definição de escolasticismo como cultura intelectual das escolas, e relação com universidades e Aristóteles, seção 1. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)
- “Thomas Aquinas, St.” Encyclopedia of Philosophy (PDF). Dados biográficos sobre docência em Paris, controvérsias e produção acadêmica, p. 0 a 1 do PDF.
- Correia, Alexandre. “A Universidade Medieval” (PDF). Universidade como corporação, formação consuetudinária, referência à bula Parens scientiarum e privilégios, p. 293 a 294 indicados no próprio texto, p. 0 a 1 do PDF.











