Pontos-Chave Importantes desde Artigo
- Platão situa a beleza no mundo das Ideias: beleza transcendente e imutável
- Aristóteles define beleza como ordem, simetria, proporção e justa medida no objeto concreto
- Para Platão, arte é imitação de imitação (duas vezes distante da verdade)
- Para Aristóteles, arte revela universais através de particulares (catarse e mimesis)
- Beleza platônica é subjetiva (depende da alma que contempla)
- Beleza aristotélica é objetiva (qualidade mensurável do objeto)
- Tensão entre essas visões molda debates contemporâneos sobre beleza
- Algoritmos, filtros e padrões estéticos modernos refletem ambas as tradições
A Batalha Filosófica que Define a Beleza
Quando você olha para uma obra de arte e diz “isso é belo”, o que exatamente está afirmando? Está reconhecendo uma qualidade objetiva no objeto – suas proporções, sua harmonia, sua estrutura – ou está expressando uma experiência subjetiva, uma ressonância entre sua alma e algo transcendente? Esta questão, aparentemente simples, divide dois dos maiores filósofos da história: Platão e Aristóteles.
A divergência entre mestre e discípulo sobre a natureza da beleza não é mera disputa acadêmica. Ela moldou toda a tradição estética ocidental e continua reverberando em debates contemporâneos. Quando discutimos se beleza é “universal” ou “relativa”, quando algoritmos tentam identificar rostos “objetivamente belos”, quando influenciadores digitais promovem padrões estéticos através de filtros, quando museus debatem o que merece ser exposto – estamos, conscientemente ou não, reencenando a antiga batalha entre Platão e Aristóteles.
Platão (428-348 a.C.) via a beleza como Ideia eterna e perfeita, existindo em reino transcendente além da experiência sensorial. A beleza que percebemos no mundo físico é apenas reflexo imperfeito, sombra pálida da Beleza verdadeira. Aristóteles (384-322 a.C.), seu discípulo mais brilhante e crítico mais severo, rejeitou essa metafísica transcendente. Para ele, beleza não existe em mundo ideal separado – está aqui, mensurável, objetiva, fundamentada em proporções matemáticas e harmonia estrutural dos objetos concretos.
Esta tensão entre transcendência e imanência, entre Ideia e forma, entre subjetivo e objetivo, permanece viva. Compreendê-la é essencial não apenas para história da filosofia, mas para navegar nosso mundo saturado de imagens, onde conceitos de beleza são manipulados, comercializados e constantemente redefinidos.
Platão e a Beleza Transcendente: A Teoria das Ideias
Para entender a estética platônica, devemos primeiro compreender sua metafísica revolucionária: a Teoria das Ideias (ou Formas). Platão propõe que existem dois níveis de realidade. O mundo sensível – aquele que percebemos com nossos sentidos – é mutável, imperfeito, ilusório. Acima dele existe o mundo inteligível das Ideias: formas eternas, perfeitas, imutáveis, acessíveis apenas pela razão pura.
No diálogo “O Banquete” (Symposium), Platão apresenta sua visão mais elevada da beleza através do discurso de Diotima, sacerdotisa que instrui Sócrates (210a-212a). Ela descreve uma “escada do amor” (scala amoris): começamos amando um corpo belo específico; depois reconhecemos que a beleza está em todos os corpos belos; em seguida, percebemos que a beleza da alma é superior à do corpo; depois apreciamos a beleza nas leis e instituições; então a beleza nas ciências; finalmente, alcançamos contemplação da Beleza em si mesma – a Ideia de Beleza, eterna, absoluta, não-derivada.
Esta Beleza transcendente não é bela “de certo modo” ou “em certo aspecto”. Não é bela para alguns e feia para outros, nem bela em determinado tempo e feia em outro. É Beleza absoluta, sempre idêntica a si mesma. Como Diotima afirma (211a-b): “uma beleza que sempre é, que nem nasce nem perece, nem cresce nem diminui”. Esta é a Beleza que a alma filosófica busca – não belezas particulares e perecíveis, mas a Forma eterna da qual todas as belezas derivam.
No “Fedro” (249d-250d), Platão desenvolve a dimensão experiencial da beleza. A visão de coisas belas no mundo sensível desperta anamnese – recordação – de quando nossa alma contemplava as Ideias diretamente, antes de encarnar em corpo. Beleza tem privilégio único entre as Ideias: é a mais manifesta, a mais esplendorosa (ekphanestaton). Quando vemos algo belo, nossa alma “arrepia-se e estremece”, lembrando-se da Beleza verdadeira. É por isso que beleza nos perturba, nos arrebata, nos transporta – porque desperta memória de nossa condição pré-corpórea.
Esta concepção tem implicações profundas. Primeiro, beleza no mundo sensível é sempre derivada, secundária, participação imperfeita na Ideia. Uma rosa bela participa da Beleza, mas não é a Beleza. Segundo, julgamento estético depende da condição da alma. Almas filosóficas, que cultivaram razão e ascenderam pela escada do amor, reconhecem beleza verdadeira; almas vulgares, presas aos sentidos, confundem prazer sensorial com beleza genuína. Terceiro, beleza é objetiva (existe a Ideia de Beleza), mas sua apreensão é subjetiva (depende da capacidade da alma contempladora).
Platão e a Crítica da Arte: Imitação de Imitação
A teoria estética de Platão leva a consequências surpreendentes e controversas para a arte. No Livro X de “A República” (595a-608b), ele desenvolve famosa crítica que resultou em proposta de banir poetas da cidade ideal.
O argumento é o seguinte: existe a Ideia de Cama – a Forma eterna e perfeita de “camidade”. Um carpinteiro, ao fazer cama física, imita essa Ideia, criando cópia imperfeita. Um pintor, ao pintar a cama, cria imitação da imitação – cópia de cópia, duas vezes removida da verdade. Arte mimética (imitativa) está, portanto, três graus distante da realidade verdadeira (597e).
Pior ainda: arte apela aos sentidos e emoções, não à razão. Alimenta a parte irracional da alma. Tragédias fazem-nos chorar por sofrimentos fictícios; comédias fazem-nos rir de vícios que deveríamos desprezar. Arte, especialmente poesia dramática, corrompe até mesmo almas bem-educadas ao estimular paixões que deveriam ser controladas pela razão (605b-606d).
Há exceções. No “Íon”, Platão reconhece inspiração divina em alguns poetas – mas isto os torna não sábios, e sim possessos, canais inconscientes do divino. E em “A República” III (397-403), admite música e poesia que educam para virtude, que harmonizam a alma, que representam caracteres nobres. Mas arte mimética que simplesmente imita aparências sem conhecer essências, que desperta paixões sem purificá-las – esta deve ser banida.
Esta posição severa chocou gerações de leitores. Como Platão, que escreve diálogos de beleza literária incomparável, pode condenar arte? A resposta está em sua hierarquia de valores: beleza verdadeira está na Ideia, não em representações; conhecimento genuíno vem da dialética filosófica, não de mimesis artística; virtude surge da razão governando paixões, não de identificação emocional com personagens fictícios.
Todavia, mesmo rejeitando arte mimética, Platão nunca rejeita beleza. Ao contrário, beleza é via de ascensão filosófica, despertar da alma para realidades superiores. O problema não é beleza, mas confundir belezas sensíveis e artísticas com a Beleza transcendente que deveríamos buscar.

Aristóteles e a Beleza Objetiva: Ordem, Simetria e Proporção
Aristóteles, discípulo de Platão por vinte anos na Academia, acabou rejeitando a Teoria das Ideias de seu mestre. Para ele, formas não existem separadamente em mundo transcendente – existem nas próprias coisas, imanentes à matéria. Esta reviravolta metafísica revoluciona também sua estética.
Na “Metafísica” (Livro XIII, 1078a-b), Aristóteles define explicitamente o belo: “As formas supremas do belo são a ordem (taxis), a simetria (symmetria) e o definido (horismenon), que as ciências matemáticas demonstram em grau especial”. Para Aristóteles, beleza não é Ideia transcendente, mas qualidade objetiva, mensurável, fundamentada em relações matemáticas e estruturais.
Na “Poética” (1450b-1451a), ele complementa: “O belo, seja em ser vivo ou em qualquer coisa composta de partes, não apenas deve ter essas partes ordenadas, mas também deve ter determinada magnitude… a beleza consiste em magnitude e ordem (megethos kai taxis)”. Beleza requer tamanho apropriado – nem tão pequeno que seja imperceptível, nem tão grande que não possa ser apreendido como unidade. E requer ordem – arranjo harmonioso das partes formando todo coerente.
Este conceito de beleza é radicalmente diferente de Platão. Primeiro, é objetivo: beleza está no objeto, em suas proporções reais, não em Ideia separada nem em experiência subjetiva do observador. Segundo, é mensurável: podemos identificar matematicamente as proporções que produzem beleza. Terceiro, é imanente: não precisamos contemplar mundo transcendente; beleza está aqui, nas coisas concretas bem-proporcionadas.
A proporção áurea, embora não explicitamente formulada por Aristóteles, exemplifica perfeitamente seu princípio. Quando partes de um objeto se relacionam segundo razão matemática harmoniosa (aproximadamente 1:1,618), o resultado é objetivamente belo. Isto se aplica à arquitetura do Partenon, à escultura clássica, até às proporções do corpo humano ideal. Não é questão de gosto subjetivo ou contemplação mística – é geometria, matemática, estrutura objetiva.
Aristóteles também enfatiza “unidade na variedade”: objeto belo deve ter diversidade de partes (variedade), mas essas partes devem formar conjunto harmonioso (unidade). Uma sinfonia tem múltiplos instrumentos e movimentos (variedade), mas todos contribuem para obra coerente (unidade). Uma tragédia tem múltiplos personagens e episódios (variedade), mas todos servem a enredo unificado (unidade). Variedade sem unidade é caos; unidade sem variedade é monotonia. Beleza é equilíbrio dinâmico entre ambos.
Aristóteles e a Reabilitação da Arte: Mimesis e Catarse
Onde Platão condena arte mimética, Aristóteles a celebra. A “Poética” – obra fundacional da teoria literária ocidental – é essencialmente resposta e correção da crítica platônica à arte.
Para Aristóteles, mimesis (imitação) não é vício, mas virtude distintivamente humana. “O imitar é congênito no homem (desde a infância… o homem é o mais imitador de todos os animais) e por meio dele adquire os primeiros conhecimentos” (1448b). Aprendemos imitando; arte é extensão sofisticada dessa capacidade natural.
Crucialmente, arte não imita meramente aparências superficiais (como Platão acusava), mas revela universais através de particulares. O historiador, diz Aristóteles (1451a-b), narra o que aconteceu; o poeta representa o que poderia acontecer segundo verossimilhança e necessidade. “Por isso a poesia é mais filosófica e mais séria que a história”. Arte não copia realidade empiricamente, mas destila essências, revela padrões, ilumina verdades universais sobre natureza humana.
Além disso, arte tem função purificadora: catarse. Tragédia, ao representar ações que suscitam “terror e piedade, tem por efeito a purificação (catarse) dessas emoções” (1449b). Ao experimentar emoções intensas em contexto controlado e estético, espectador as purga, as compreende, as integra. Arte não corrompe alma (como temia Platão), mas a educa, harmoniza, cura.
A definição aristotélica de tragédia (1449b) especifica elementos que produzem beleza artística: deve ter “extensão completa” (magnitude apropriada), “linguagem ornamentada” (beleza formal), “ação dramática” (não narrativa), produzir catarse através de enredo (mythos) bem-construído. Enredo é “alma da tragédia” – deve ter começo, meio e fim; deve seguir lógica de necessidade ou verossimilhança; deve conter peripécia (reversão) e reconhecimento (anagnorisis). Quando esses elementos se harmonizam, o resultado é belo não apesar de representar sofrimento, mas através da ordem que impõe ao sofrimento.
Isto permite a Aristóteles explicar fenômeno paradoxal: por que apreciamos representações artísticas de coisas que seriam dolorosas na realidade? “Objetos que em si mesmos são desagradáveis de ver, suas imagens muito exatas contemplamos com prazer, como por exemplo as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres” (1448b). A resposta: porque apreciamos não o objeto representado, mas a habilidade da representação, a ordem imposta ao caos, a revelação de universais. Arte transforma até o feio em objeto de contemplação estética.
Divergências Fundamentais: Subjetivo vs Objetiva, Transcendente vs Imanente
As diferenças entre Platão e Aristóteles sobre beleza cristalizam em oposições fundamentais:
Localização da beleza:
- Platão: Beleza existe primariamente no mundo das Ideias; beleza sensível é derivada, secundária
- Aristóteles: Beleza existe nas próprias coisas concretas, em suas proporções e estruturas objetivas
Natureza da beleza:
- Platão: Beleza é Forma transcendente, eterna, imutável, acessível pela razão contemplativa
- Aristóteles: Beleza é qualidade imanente, mensurável, fundamentada em ordem, simetria, proporção
Subjetividade vs Objetividade:
- Platão: Apreensão da beleza depende da condição da alma; é experiência de recordação (anamnese)
- Aristóteles: Beleza é qualidade objetiva do objeto; embora requeira percepção, não depende de estado subjetivo especial
Papel da arte:
- Platão: Arte mimética é problemática – imitação de imitação, distante da verdade, apelando a emoções
- Aristóteles: Arte mimética é valiosa – revela universais, educa emoções, purifica alma através de catarse
Relação entre beleza e verdade:
- Platão: Apenas Ideia de Beleza é verdadeiramente bela; beleza sensível é enganosa
- Aristóteles: Beleza artística pode revelar verdades universais sobre natureza humana
Metodologia:
- Platão: Dialética ascendente pela escada do amor, da beleza sensível à Beleza inteligível
- Aristóteles: Análise empírica de objetos belos para identificar princípios estruturais comuns
Estas divergências não são meramente técnicas – refletem visões de mundo radicalmente diferentes. Platão é fundamentalmente dualista: realidade verdadeira está além do sensível. Aristóteles é fundamentalmente empirista: realidade está nas coisas concretas que estudamos. Platão é místico: conhecimento supremo é contemplação direta de Ideias. Aristóteles é científico: conhecimento vem de observação, análise, classificação.

Ecos na História da Estética: Neoplatonismo e Escolástica
A tensão entre estética platônica e aristotélica reverberou através da história. No Neoplatonismo de Plotino (205-270 d.C.), a visão platônica foi radicalizada. Em “Enéadas” (I.6), Plotino argumenta que beleza não é apenas proporção (contra Aristóteles), mas emanação do Uno, esplendor da forma transcendente brilhando através da matéria. Arte verdadeira não imita aparências, mas manifesta arquétipos inteligíveis que o artista contempla interiormente.
Esta tradição influenciou profundamente estética cristã medieval. Pseudo-Dionísio Areopagita (séc. V-VI), em “Dos Nomes Divinos”, identifica Deus como fonte de toda beleza, que se manifesta em criação através de participação. Beleza é teofania – manifestação do divino. Esta é essencialmente posição platônica cristianizada.
Todavia, escolástica medieval também integrou Aristóteles. Tomás de Aquino (1225-1274), em “Suma Teológica” (I, q.39, a.8), define belo como tendo três condições: integridade ou perfeição (integritas), proporção devida ou harmonia (proportio), e claridade ou brilho (claritas). As duas primeiras são aristotélicas (estrutura objetiva); a terceira tem ressonâncias platônicas (esplendor manifestando forma). Aquino tenta sintetizar, argumentando que beleza objetiva (proporções) requer percepção subjetiva (prazer na apreensão).
Renascimento viu ressurgimento de ambas tradições. Neoplatonismo florentino, especialmente Marsilio Ficino, reviveu Platão. Mas artistas renascentistas também aplicaram princípios aristotélicos de proporção matemática – da perspectiva linear de Brunelleschi às proporções ideais do corpo humano estudadas por Leonardo da Vinci.
Esta história mostra que tensão entre Platão e Aristóteles não foi “resolvida”, mas continuamente renegociada, produzindo sínteses criativas mas instáveis.
Beleza nos Dias Atuais: Platão e Aristóteles em Nosso Tempo
Como essas antigas teorias se relacionam com conceitos contemporâneos de beleza? Surpreendentemente, ambas permanecem vivas e relevantes, frequentemente em tensão.
A dimensão aristotélica persiste em:
Padrões objetivos de beleza: Estudos em psicologia evolucionária sugerem preferências universais por certas proporções faciais – simetria, razão específica entre largura e altura do rosto, proporção entre tamanho dos olhos e distância entre eles. Isto ecoa princípio aristotélico de proporção objetiva. A proporção áurea (phi = 1,618) continua sendo aplicada em design, arquitetura, e até cirurgia plástica para determinar “proporções ideais”.
Algoritmos de beleza: Softwares de reconhecimento facial que avaliam “atratividade” baseiam-se em métricas objetivas – simetria, proporções, características mensuráveis. Aplicativos como FaceApp ou filtros de Instagram que “melhoram” rostos fazem-no ajustando proporções para aproximar ideais estatísticos. Isto é puro aristotelismo: beleza como qualidade mensurável do objeto.
Estética do design: Princípios de design gráfico, arquitetura, design de produto continuam enfatizando proporção, simetria, harmonia, equilíbrio – exatamente os critérios aristotélicos. A “beleza” de um iPhone não é acidental, mas resultado de proporções cuidadosamente calculadas.
Fitness e corpo ideal: A obsessão contemporânea com corpo “perfeito” frequentemente se expressa em termos aristotélicos – proporções ideais (razão cintura-quadril, índice de massa corporal), simetria muscular, harmonia de proporções. Personal trainers e cirurgiões plásticos literalmente esculpem corpos segundo medidas “objetivas”.
A dimensão platônica persiste em:
Subjetividade do gosto: Apesar de métricas objetivas, mantemos convicção de que beleza é, em algum nível, “subjetiva” – está nos olhos de quem vê. Isto ecoa intuição platônica de que apreensão da beleza depende do observador, da “condição da alma”.
Beleza transcendente: Experiências de beleza sublime – diante de natureza majestosa, arte profunda, música transcendente – frequentemente são descritas em termos quase-platônicos: como vislumbre de algo além, como conexão com dimensão superior da realidade. Mesmo em era secular, mantemos linguagem de transcendência para beleza genuína.
Crítica a padrões comerciais: Movimentos como “body positivity” criticam padrões estéticos comercializados como arbitrários, opressivos, ilusórios – ecoando crítica platônica às aparências enganosas. Argumentam que beleza “real” não está em proporções corporais, mas em algo mais profundo – caráter, autenticidade, “beleza interior”. Isto é secularização da hierarquia platônica que privilegiava beleza da alma sobre beleza do corpo.
Arte conceitual: Quando arte contemporânea rejeita beleza formal em favor de ideias, conceitos, significados, está, de certa forma, seguindo hierarquia platônica que privilegiava inteligível sobre sensível. Marcel Duchamp colocando urinol em museu ecoa desprezo platônico por mimesis e afirmação de que arte verdadeira está na ideia, não no objeto.
Tensões contemporâneas:
A tensão entre essas visões produz debates atuais:
Diversidade vs Padrões: Há padrões universais de beleza (aristotélico) ou beleza é culturalmente construída e diversa (mais platônico, no sentido de que depende da “alma” cultural que percebe)?
Natural vs Artificial: Cirurgia plástica e modificações corporais são aproximações de ideal objetivo (aristotélico) ou falsificações que distanciam de autenticidade (platônico)?
Filtros e realidade virtual: São ferramentas para alcançar proporções ideais ou ilusões que nos afastam de beleza genuína? Aristóteles diria que melhoram objetivamente proporções; Platão diria que são sombras de sombras, mais distantes ainda da Beleza verdadeira.
IA gerando arte: Quando algoritmos criam imagens “belas” otimizando padrões matemáticos, demonstram natureza objetiva da beleza (aristotélico) ou revelam vazio de beleza sem dimensão humana/transcendente (platônico)?
Síntese Impossível? Vivendo a Tensão
Podemos sintetizar Platão e Aristóteles sobre beleza? Ou devemos escolher entre eles?
Historicamente, tentativas de síntese foram parcialmente bem-sucedidas mas nunca definitivas. Cada época retorna à tensão fundamental, renegociando termos segundo contexto contemporâneo.
Talvez a tensão seja produtiva, não problemática. Precisamos de ambas as intuições:
Da tradição aristotélica, preservamos reconhecimento de que beleza tem aspectos objetivos, estruturais, mensuráveis. Nem tudo é “relativo” ou “subjetivo”. Proporção, simetria, harmonia – estas não são invenções arbitrárias, mas princípios que ressoam profundamente com percepção humana. Quando arquitetos aplicam proporção áurea, quando designers equilibram composições, quando músicos criam harmonias, não fazem escolhas aleatórias – respondem a estruturas que funcionam, que produzem experiência de beleza.
Da tradição platônica, preservamos intuição de que beleza genuína transcende meras proporções físicas. Experiências profundas de beleza – diante de obra-prima artística, de ato de bondade suprema, de natureza selvagem – envolvem algo mais que cálculo de proporções. Há dimensão de significado, de transcendência, de conexão com algo maior. E reconhecemos que apreensão de beleza depende não apenas do objeto, mas de quem percebe – da educação, sensibilidade, abertura da alma.
Vivemos produtivamente esta tensão reconhecendo que:
- Beleza tem dimensões objetivas E subjetivas – não é escolha binária, mas polaridade dinâmica
- Padrões matemáticos de proporção são reais E insuficientes para capturar totalidade da experiência estética
- Arte pode revelar universais através de particulares (Aristóteles) E apontar para transcendência além do representável (Platão)
- Devemos cultivar tanto habilidade técnica de reconhecer proporções harmônicas quanto capacidade contemplativa de perceber significados profundos
Em era de manipulação massiva de imagens, padrões estéticos comercializados, e simultaneamente busca renovada de autenticidade e significado, precisamos tanto de crítica aristotélica (estas proporções são ou não harmoniosas objetivamente?) quanto de crítica platônica (estas imagens nos aproximam ou distanciam de beleza autêntica?).
Finalizado: Legado Perene de Dois Gigantes
A divergência entre Platão e Aristóteles sobre natureza da beleza não é relíquia histórica, mas debate vivo que atravessa milênios. Suas posições – beleza como Ideia transcendente versus beleza como proporção imanente, subjetividade da apreensão versus objetividade da estrutura, arte como imitação problemática versus arte como revelação de universais – continuam definindo termos de discussões contemporâneas.
Platão nos ensina que beleza genuína aponta além de si mesma, que desperta algo profundo na alma, que não pode ser reduzida a métricas superficiais. Nos lembra de distinguir aparências sedutoras de beleza autêntica, de buscar beleza não apenas em corpos e objetos, mas em almas, ações, ideias. Nos convida a ascender pela escada do amor, da fixação no belo particular à contemplação do Belo universal.
Aristóteles nos ensina que beleza está aqui, no mundo concreto, em proporções mensuráveis e harmonias estruturais. Não precisamos de misticismo transcendente – precisamos de observação cuidadosa, análise precisa, compreensão de princípios objetivos. Nos mostra que arte não é fuga da realidade, mas meio de compreendê-la mais profundamente, de purificar emoções, de educar percepção.
Ambos têm razão parcial; ambos são necessários. Beleza é mistério que resiste a redução completa a qualquer fórmula – seja matemática (Aristóteles) ou mística (Platão). É fenômeno complexo, com dimensões objetivas e subjetivas, estruturais e experienciais, imanentes e transcendentes.
Em nosso mundo contemporâneo saturado de imagens, obcecado por aparências, mas também ansiando por autenticidade e significado, essas antigas sabedorias permanecem guias essenciais. Elas nos ensinam a ver beleza com olhos críticos mas também contemplativos, a apreciar tanto proporções harmoniosas quanto significados profundos, a cultivar tanto habilidades técnicas quanto sensibilidade espiritual.
A batalha filosófica entre Platão e Aristóteles sobre beleza continua – em cada filtro de Instagram aplicado, em cada debate sobre padrões corporais, em cada experiência sublime de arte genuína. E continuará enquanto seres humanos se perguntarem: o que torna algo belo? A resposta, como esses dois gigantes nos ensinaram há mais de dois mil anos, é simultaneamente simples e infinitamente complexa.
Referências Bibliográficas
PLATÃO. O Banquete (Symposium). Tradução: Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2011.
- Páginas 210a-212a: Escada do amor e ascensão à Beleza transcendente
- Páginas 211a-b: Descrição da Beleza absoluta e eterna
PLATÃO. Fedro. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2011.
- Páginas 249d-250d: Anamnese, beleza como recordação e privilégio entre as Ideias
PLATÃO. A República. Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
- Livro X, 595a-608b: Crítica da arte mimética e teoria da imitação
- Páginas 597e: Arte como imitação de imitação
- Páginas 605b-606d: Arte e corrupção da alma
- Livro III, 397-403: Educação musical e poética para virtude
PLATÃO. Íon. In: Diálogos. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2011.
- Inspiração divina e possessão poética
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução: Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002.
- Livro XIII, 1078a-b: Definição de beleza como ordem, simetria e definição
ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poetica, 1992.
- Páginas 1448b: Mimesis como natural ao ser humano; prazer em representações
- Páginas 1449b: Definição de tragédia e catarse; estrutura do enredo
- Páginas 1450b-1451a: Beleza em magnitude e ordem; partes ordenadas
- Páginas 1451a-b: Poesia mais filosófica que história; universais através de particulares
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução: Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
- Discussões sobre proporção, justa medida e harmonia aplicadas à virtude e beleza











